145 da rua vitória

Parando pra pensar, razão não tinha nenhuma, mas seguia dirigindo. Se bem que preocupação em chegar ao número 145 da rua vitória também não existia nenhuma. O apartamento estava repleto das coisas que, na sua ausência, a representavam -- tapete de sisal da sala, jogo americano manchado de vinho tinto, o suco de morango com água na geladeira-e isso era, de certa forma, reconfortante. Uma ampliação do seu terreno, o puxadinho invadindo a vida dele. Para falar a verdade, não se importava muito com esse território conquistado: era como praticar hidrocultura e herdar um hectare no sertão nordestino. Mas já que estava lá, e era dela mesmo, encheu de entulho.

A terra estava rachada de tão seca. Chovia uma gota por ano, o suficiente para convencer de que desistir seria precipitado. Não crescia nem mandacaru quanto menos alguma flor colorida para alegrar aquela paisagem tão sem graça, sem alegria. Via só a ela há tanto tempo que seu referencial já tinha esmorecido e a monotonia daquele monocromatismo quase a preenchia completamente. Mas ela estava indo para casa acariciar seus cachorros, colocar a bolsa na mesa de entrada, pôr água fresca nas bacias, tirar os sapatos, fazer uma salada, ver um pouco de tv. Tudo ali tinha algo dela mas sentia-se uma convidada na vida que escolhera ou, talvez seja mais acertado dizer assim, na vida que a tinha escolhido: simplesmente foi com a correnteza, feito alga arrastada pelo movimento contínuo e alojada pela inércia. Tudo tão bege, mas não chegava a ser ruim: não conhecia outra cor.

O farol demorava uma eternidade para abrir. Ela ficava imaginando o quão humilhante era ser malabarista de cruzamento, florista de esquina, pastor de faixa de pedestre. Dentro daquelas centenas de carros emparelhados, centenas de motoristas solitários acompanhavam as laranjas que subiam e desciam das mãos do circense de tráfego; os olhos as seguiam com o mesmo entusiasmo e atenção com que ela fazia o percurso para o número 145 da rua vitória. "Carma", pensava ela por preguiça de seguir outra linha de raciocínio, alguma que a levasse a concluir que sair de um relacionamento morno como chá esquecido em cima da mesa era bem mais possível do que desviar o olhar da única coisa em movimento num trânsito parado. Sua vida era um trânsito parado e única coisa em movimento, contínuo e para longe, era o amor que nem notara não mais sentir.

Verde. Acelerando ela deixava para trás a sensação quase parida: a incômoda necessidade de mudança gritava, ainda baixinho, quando o corpo se livrava das urgências. O acúmulo de anos sobre os dois fizeram qualquer mudança tão difícil quanto o movimento de um soterrado. Eles não reclamavam, não odiavam, não insultavam; tinham acostumado com o peso sobre o peito de uma tal forma que ele se incorporara ao peso de cada um. Cada um com ambas as cargas.

Começou com a mudança: morando, estudando e brincando lado a lado. Continuou com a chegada da adolescência, grupo de amigos em comum, cervejas compartilhadas, sexo, namoro, um pra um lado outro pra outro. Depois veio a faculdade e as afinidades apareciam: nomes subsequentes na lista de aprovados. Quatro anos de divisão de tarefas, noites em claro mais por culpa das eternas comemorações universitárias do que por preocupação com o futuro profissional, razão de choros e risadas e, de novo, sexo. Dessa vez, intenso, cheio de uma quase maturidade, pleno de intimidade entre duas pessoas que tinham tanta história juntas quanto vontade de continuar assim. E continuaram.

Vinte minutos de engarrafamento e dez anos depois, já não passavam noites em claro, nem por um bom filme de vídeo, um jantar com amigos, nem pelo choro de um filho, nem por sexo. Por nada. Não existia nenhum culpado. A verdade é que apesar de sempre terem sido próximos demais, como duas linhas paralelas, jamais se encontrariam. As noites já não eram compartilhadas, estavam compartimentadas: ele com preocupações, ações, lucros, olheiras de quem tem no computador o único companheiro de madrugadas. Ela com livros, horas e horas de sono, devaneios, esforço em não achar tudo errado. De vez em quando a lembrança de um momento feliz ou de uma briga séria os trazia mais pra perto, mas era só um lance brilhante numa partida medíocre e logo tudo voltava ao normal. O normal era a intimidade que o acúmulo dos anos trazia aos poucos e o descompasso de desejos levava feito enxurrada.

Vinte minutos de engarrafamento e dez anos depois, ela ainda seguia para casa. A segurança em lidar com o conhecido a confortava pela falta do que, um dia, foi cotidiano: a vontade de provocar riso, as flores para desculpar-se do ciúme pelo medo em perder quem enchia de significado qualquer coisa banal. O tempo tinha feito por conta própria, e sem sua aprovação, uma troca: passionalidade por estabilidade. Ela estava livre do constante e paralisante medo de perder-se, sofrer, ficar só, mas havia perdido a vontade de procurar a paisagem prometida que faria a insegurança do caminho valer a pena. Agora seus pés estavam firmemente apoiados numa rocha que, começara a se dar conta, dava vista para o nada. Mas estava segura.

No quarteirão que faltava para chegar no número 145 da rua vitória ela já não se importava com as buzinas ou com os caminhões acelerando: o pior barulho vinha do seu celular. O nome dele brilhava no visor e, pela primeira vez na sua vida, teve ganas de atender e dizer que queria mais, que já não bastava a bela mobília, os cachorros comprados no dia dos namorados, o beijo no rosto, conhecer todos os amigos, comer nhoque às quartas-feiras, viajar para Paris, sentir medo, não saber o que viria. Ela queria amarrá-lo e dizer, sem possibilidade de interrupção e sem margem a desistência, que havia se cansado de viver numa paisagem de Monet onde tudo era lindo e difuso e desejava contornos definidos, contrastes, exageros, expressionismo. Diria que precisariam de um milagre para salvarem-se das moléstias que se multiplicavam na água parada em que se transformaram. Falaria, enfim, que não aguentava a sua mania de organização, seu jeito de comer frango com as mãos nem a feição ridícula que fazia quando excitado.

O visor continuava com o nome dele. O trânsito parou de novo. Ela atendeu o telefone e disse que estava perto de casa. Que bom que ele tinha pedido comida. A reunião foi horrorosa. Ainda bem que ele havia comprado o presente porque ela apagou completamente da memória. Deixa a porta da frente aberta: vou subir com uns vinhos e estão pesados.

Os cinco carros que a separavam da entrada do portão da garagem finalmente andaram. A grade se levantou, ela entrou, estacionou, desceu com os vinhos, pegou o elevador e ignorou o que havia pensado durante o caminho. Estava em casa, segura, prestes a jogar a bolsa em cima da mesa, agradar os cachorros, conversar com ele sobre o dia, ver tv, e era isso que importava. O número 145 da rua vitória era sua pior derrota. A derrota de uma luta em que deu WO em si mesma.

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