Descida ao altar

Não quero casar. A idéia pode até ter passado por perto de mim enquanto me encontrava sob o efeito do conteúdo frutoso e bordô das minhas garrafas de Merlot, dos beijos de línguas enroladas e juras de amor, mas assim que minha cabeça volta a funcionar, mecanismo azeitado, casamento se torna tão desejável quanto quilos a mais. No fim, dão na mesma: abaixam gradualmente a auto-estima, sobrecarregam o coração, irritam, geram uma revolta indefectível e acabam por travar a coluna.

Acho uma delícia dormir acompanhada, eventualmente acordar acompanhada, mas dar de cara, todos os dias, com alguém, agüentar os humores, passar finais de semana brigando por pequenas palavras tortas, dividir meus espaços, entrar em acordo quanto a decoração, jantar na casa da sogra com a família reunida, e os decibéis ultrapassando o nível suportável pelo ouvido humano, não chega a ser uma perspectiva que me faça sorrir em dias cinzentos. tenho nada contra núcleos familiares, só não aguento ficar imersa neles por mais de alguns minutos: meus medidores de bile e adrenalina começam a entrar em tilt, os músculos do meu rosto fogem ao meu controle e enrijecem, me concedendo um ar gentil como o de um general desobedecido publicamente.

Filhos também não fazem parte dos meus planos. Pelo menos não até a descoberta de vida em Vênus ou o nascimento de uma vontade incontrolável em ser mãe. Crianças são lindas, surpreendentes, e imagino o quanto deva ser bom olhar para aquela miniatura e saber que ela não existiria se não fosse por mim. Que não sobreviveria se não fosse por mim. Mas não imagino fazer planos que mudem minha vida para sempre. A liberdade em beber até perder a coordenação motora ou chegar em casa e ficar simplesmente largada no chão olhando pro teto ainda é vital pra mim. Filho é coisa pra gente desprendida e altruísta ou completamente irresponsável. Para os outros em geral. Só de imaginar carregar aquela barriga durante infindáveis meses e perder, progressivamente, a capacidade de me virar na cama e cortar as unhas dos meus próprios pés me dá coisas. Há de levar-se em conta o fato de não ter muita paciência e nunca saber quando o pouco que existe dela escoará ralo abaixo —quando isso acontece, apenas fico quieta, bebo gim com suco de uva e espero o bode passar. E filho não tem chave de On-off, não dá pra botar no armário, colocar anúncio de doação, tirar a pilha, abaixar o volume, dar pro irmão. Filho é perene, e sempre fui de fases. Algumas longas, é verdade, mas imensuráveis quando no início.

O problema é que ele me pediu em casamento. E sonha em ter filhos. O que tornou meu feriado horroroso. Pesadelo atrás de pesadelo. Num deles, a cada vez que dava bronca em algum exemplar da minha penca de herdeiros, engravidava, de castigo. No outro, o pior deles, fui condenada-- por um júri composto por meu pai e integrantes da Liga das Senhoras católicas-- a viver com um homem que falava aos berros, assistia futebol todos os dias e me pedia pra buscar cerveja na geladeira com um tapa na nádega direita.

Ele quer casar e eu, sair correndo.

Posso até dizer que tudo bem, vamos lá, conta conjunta, revezamento de carro nos dias de rodízio, camiseta usada em cima da toalha molhada em cima da cama, dar satisfação do que estou fazendo e pra onde vou, quebrar o pau porque saí sozinha numa quinta-feira à noite porque não aguento grude e rastreamento. Posso dizer tudo bem, vamos lá, férias obrigatoriamente juntos, um querendo mato outro querendo Paris, no que você gastou esses trezentos reais da fatura do cartão de crédito, mas o dinheiro é meu e torro como quiser, o botão da camisa caiu, acabou o leite e embolorou o queijo. Dizer tudo bem, vamos lá, é fácil. Difícil é eu querer abrir mão da minha solitude necessária, das vontades esparsas de outros corpos, da necessidade de seduzir pra não enferrujar, de transar com outro por diversão, de realmente desejar esse tudo-junto-todo-dia. Não sou assim, não quero isso e não consigo ficar sozinha.

Mas agora complicou. Acabou-se a deliciosa ingenuidade de viver hoje sem pensar um ano a frente, em pagar o aluguel do mês ignorando solenemente os financiamentos de imóveis: ele me pediu em casamento.

Eu que já chorei tanto por amores quebrados sem possibilidade de cola. Que quis gente errada, na hora errada, do jeito errado. Amei um, esperei alguns e espezinhei bem poucos. Que vou até o fim do caminho pra não ter dúvida sobre a felicidade morar na última curva, calejei os pés e sangrei inteira. Que não tenho porcentagem: sempre 100%, seja nas risadas ou no desejo de deixar de existir que me acompanha desde que me tornei um ser e volta, poderoso, sempre que o horizonte escurece e meus olhos enxergam só trovões e a impossibilidade de céu azul. Eu que preservo algo em mim, trancado, detrás de placas de "Afaste-se", mas anseio, muda, alguém que invada o terreno, quebre a grade e descubra o que há lá dentro. Publicamente, cínica e irônica. Em essência, triste. Eu que anseio pela felicidade eterna, e não acredito no eterno, preciso decidir se hipoteco meu futuro com alguém que mal me conhece ou comigo mesma. Preciso decidir qual companhia temo menos: a dele ou a minha.

Estar com ele é como boiar no mar: a tranquilidade é impagável. Não menos que a excitação da possível aproximação de intempéries. Nem tão domingo ensolarado no campo nem tão trânsito das seis. Tenho cafuné, carinho, sexo, copo de cerveja cheio, companhia no caminho —seja até a praça, seja até o fim da vida. Ele me irrita com suas idiossincrasias que não faço muita questão de contemporizar; minha vontade de compreender o que me parece estupidez vem diminuindo consideravelmente com a idade. Ele me acalma com o abraço sólido, presente, cápsula morna que mantém distante dos perigos do mundo. Sozinha, tenho sono à tarde sem compromissos cancelados à força nem neuras em estar deixando o relógio correr. Coloco os cds em caixas trocadas, assisto seriado após seriado no meu canal predileto, não falo com ninguém se não quiser. Se quiser, ligo. Entregue a minha companhia, possuo o domínio do meu tempo e sofro ou me alegro sem testemunhas, sem perguntas, com calma. Sei que estou comparando o azul do mediterrâneo com o bege do Saara, mas nada me convence que conseguirei manter o melhor dos dois e não acabar tendo o pior de ambos: a opressão da presença alheia intermitente e a desolação do meu vôo solo. Alguém precisa me ensinar a dosar: minhas medidas estão todas fora do padrão.

Ele quer casar comigo e eu nunca me senti de ninguém.

Ele quer viver comigo e eu não confio na duração do meu desejo.

Eu só quero um dia bom após o outro e, ao olhar pra trás, sei lá quando, notar que eles foram mais abundantes e marcantes que as horas ruins. Ele precisa de uma aliança. Minha felicidade é medida pela vontade de estar com alguém subtraindo a necessidade de estar. A dele, uma casa cheia de filhos e planos. Meus sonhos são um blended. Os dele, single malt. Eu me delicio com os vícios, ele aspira pelas virtudes. Eu me alio a quem não entendo. Ele, julga e condena.

Mas, mesmo assim, ele quer casar comigo.

Poderia acabar com tudo. Dissolver o impasse e tocar a vida para o próximo interesse, que existirá. Sempre existe, aprendi isso. Por mais creia, em todos os finais, na morte à míngua, no sofrimento incalculável, fico surpreendida em quão rápido mudo de perspectiva. E então eu aprenderia os gostos, decifraria os silêncios, superaria o embaraço do meu corpo nu perante o olhar de significado que desconheço e, por isso mesmo, temo. Poderia, e posso, fazer o que quiser, como sempre fiz, mas não é essa a questão. O que me incomoda é que ele realmente me ama e eu não tenho a menor idéia do que fazer com isso.

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