O rebanho do Aconcágua

"O Aconcágua fica lindo nessa época do ano". Se bem que só o vi uma vez e não posso dizer se ele fica mais bonito ainda em outra época, mas é romântico falar "O Aconcágua fica lindo nessa época do ano". Pois então, o Aconcágua ficava lindo naquela época do ano. E ele respondeu, pegando minha mão e olhando fundo nos meus olhos castanhos: "Como somos abençoados por ter essa paisagem em nossa frente e esse vento frio batendo no rosto". O "abençoado" caiu meio torto-não curto demonstrações de fé exacerbada, principalmente em homens que eu quero amarrar na cama e jogar cera de vela no peito. Sei lá, faz parecer que vou acabar trepando com São Cipriano. Mas ignorei o ABENÇOADO aviso luminoso e fui em frente. Tão em frente que, de volta ao Brasil, estava na sala da casa dele, em pleno verão, vestindo um top minúsculo e um short que contrariava as leis da física. Prontinha para abater São Cipriano.

Ele era um doce. Maduro, consistente, apetitoso. Uma manga haden em forma de homem. Nos conhecemos em Buenos Aires e, numa dessas absurdas coincidências, seguimos juntos para Mendoza para participar de um congresso sobre o Mercosul (bons tempos nos quais acreditávamos que o Mercosul seria algo mais que um mercadinho de bairro). Os dias estavam lindos, o sol brilhava, meus hormônios gritavam, histéricos "Eu quero esse homem!"- meus hormônios sempre foram meio histéricos mesmo. Depois de 80 horas juntos (cinco dias menos 32 horas de sono individuais), já havíamos contado nossas histórias (ambos), bebido muito vinho (eu), falado sobre Deus (ele), discursado sobre a vida (nós) e morrido de vontade de pular sobre o outro e destruir as roupas feito o Wolverine (eu), mas o mais perto que chegamos de sexo foi um beijo de boa noite que durou, aproximadamente, dois segundos. Só relaxei ao saber que ele morava a exatos dois quarteirões da minha casa e estávamos a caminho delas no dia seguinte. Como somos abençoados, não?

Para uma garota acelerada como eu, o melhor homem é aquele que funciona como freio porque, caso contrário, acabaríamos, ambos, capotados ou debaixo de algum caminhão. Sorridentes com a aventura porém mortos. E ele era um freio perfeito. Veja bem, isso não quer dizer que era um mala, um sonso, um lerdo, uma anta. Não. Ele era tranquilo, centrado. Psicólogo junguiano. Professor de espanhol, interessado por política externa, moreno, alto, mãos grandes e voz calma. Um bálsamo para minha ansiedade. Ex- missionário jesuíta, ex marido de uma senhora católica: havia encontrado o único homem puro do universo! Dar de cara com o portal dimensional para Macchu Picchu seria mais fácil que isso.

Assim que colocamos o trem de pouso no Brasil, decidi que não deixaria aquele brinde celestial escapar. E não deixei. Durante 20 dias tudo foi lindo: jantares, conversas inteligentes, comentários inspirados, olhares de admiração, atenção, mão na mão. Do vigésimo ao trigésimo dia, comecei a ficar incomodada com a falta de apalpadas no meu corpo, a ausência de beijos e línguas, a não existência de um bom arrocho-mas fiquei quietinha, vai que o moço tá com medo de ser estuprado? Tão puro, ele. E foi no trigésimo primeiro dia, uma tarde saariana de verão, que surgi na casa dele vestindo um top minúsculo e um short que contrariava as leis da física. Prontinha para abater São Cipriano.

A porta abriu junto com seu sorriso lindo, branquinho: vim fazer uma surpresa. Que bom, entra. Quer beber alguma coisa? Tem suco? Tem, vou pegar. Posso ficar na sala ouvindo música? Claro. Deitei no carpete, coloquei a almofada debaixo da cabeça, emendei um John Pizzarelli no volume médio e estudei a posição do corpo para que ficasse convidativo, apetitoso, mas não ao ponto de "me come agora"-podia assustar o moço. Tão puro, ele. O suco chegou. Agachou para me dar o copo. Tirei da mão dele e o puxei pro chão, passando minhas pernas longas em volta do seu quadril. Nos beijamos. Eu passava a mão pelos seus cabelos, descia até o botão da calça... mas PERAÌ: cadê as apalpadas? A ereção? Com a maior naturalidade, ele se desvencilhou das minhas pernas, virou em direção ao armário pra pegar alguma coisa. ALELUIA! Só podia ser camisinha. O que mais ele pegaria no armário, comigo praticamente pelada e me esfregando nele?

Torá, Talmude, Alcorão, Velho testamento-nem de muito longe e com muito esforço se assemelhavam a uma camisinha. Ele se sentou e começou a me explicar, enlevado, as diferenças e semelhanças entre os livros sagrados, as religiões, as correlações das fés e me disse que era pastor batista. "Ã?"

"Estou fora há algum tempo por conta do consultório e das aulas, mas sou pastor batista e amo celebrar cultos. É algo tão intenso e vibrante como nenhuma outra experiência". Pra mim isso era a descrição de uma bela trepada, mas referencial não se discute... Algumas horas depois, eu, meu top e meu shortinho deixamos a casa dele num misto de abismados, frustrados e muito, muito instigados: nunca tinha traçado um religioso.

Dia seguinte no telefone do meu quarto:
"Oi, tudo bem? Você tem compromisso sábado à noite? Não? Então quero te levar num lugar muito especial. "

"Ah, é? E eu preciso vestir algo específico?"

"Algo discreto"

"Tá bom".

Mas que beleza! Não é que ele tinha se ligado na burrada do Talmude e iria se redimir me levando ao motel?! Que bonitinho, ele gosta de lingerie branca. Não seja por isso. E eu crucificando o pobre rapaz só porque ele é um homem de fé. Como sou injusta. Será que é bom na coisa? Vixe, deve fazer tempo que ele não bota o passarinho pra tomar sol. Ah, mas e daí? Vou é comprar uma calcinha bem meiga pra não assustar o meu São Ciprianinho. Bonitinho.

Sábado, 19h30, chuvinha fina.
Minha mão esquerda afagava a coxa dele enquanto dirigia. Nada erótico (ainda), só um toque carinhoso, atencioso. Ele olhava meu rosto e dizia o quão linda e brilhante estava. A chuva piorou e o limpador de pára-brisa quase não dava conta de jogar pra fora tanta água. Era a noite perfeita para ser a primeira com o último homem puro do mundo: fresca, aquosa. Mas o caminho estava meio esquisito. Não era pra esses lados que eu pensei que ele fosse me levar, mas vai que tem novidade e estou por fora, melhor ficar na minha. Falávamos sobre geladeiras, a bursite da mãe, a chatice do chefe, tudo completamente banal e normal. Nem um sinal de lascívia. Puta coisa estranha.

Foi então que o caminho tornou-se completamente bizarro. Definitivamente não estávamos indo pra rota do metelão. Não, não tinha essa estação de metrô nem esse monte de camelôs da última vez que passei por lá. Também não tinha morro. Morro? Ih, a chuva piorou e , mas que beleza!, acabou a luz da rua. Ele diminui a marcha, entrou num beco escuro à esquerda, subiu, subiu, subiu e ignorou minhas perguntas cada vez mais altas e estridentes: "Onde a gente tá?". Se resumia a abrir um sorrisinho gentil e odioso. "Pronto, chegamos".

"Mas isso é uma favela. E uma favela sem luz. Que raios estamos fazendo aqui?"

"Quero dividir minha vida com você e pensei em começar hoje, por aqui, compartilhando esse momento maravilhoso, essa hora de júbilo que é..."

(Interrompendo) "Hora de júbilo? Fala sério! Que caralho de hora de júbilo pode acontecer numa favela sem luz na noite do segundo dilúvio?"

"Um velho amigo, pastor dessa comunidade, me convidou para celebrar o culto dessa noite. Eu aceitei na hora porque pensei que você fosse gostar de dividir comigo essa hora de felicidade"

"Felicidade? Santa isolda, de que planeta você é? Como posso estar feliz com a iminência de ficar te vendo falar sobre o cordeiro de deus? Vendo! Como se conseguisse enxergar alguma coisa nessa MERDA DESSA ESCURIDÂO!"

"Não fica nervosa, por favor. Nada de ruim vai acontecer, estamos com Deus e todos aqui na comunidade respeitam muito a igreja. Divida comigo essa alegria"

"Eu devo ter jogado pedra na cruz. Só pode".

Sem avistar nenhum táxi nem qualquer outro objeto que pudesse me levar de volta ao meu planeta, descemos no carro. Enfiei o pé numa poça de lama. Uma senhorinha atarracada e de cabelo preso num coque (porque toda crente é atarracada e usa coque?) veio me receber com um guarda chuva. Na porta da igreja, debaixo de um toldo esburacado pelo qual vazavam respingos, estavam alinhadas dez outras senhorinhas atarracadas com seus rostos iluminados por dezenas de velas que tentavam compensar a parada momentânea da hidroelétrica. Ele se postou ao meu lado, todo orgulhoso, me apresentou pro amigo (dele e de Deus) e foi bem aí que começou a derrocada triunfal: a criatura virou para as beatas, passou os braços pelos meus ombros e o céu desabou sobre mim: "Essa é a noiva do pastor Marcelo". Os olhos delas começaram a emitir um brilho meio louco. Em questão de segundos, me transformei numa espécie de entidade iluminada na qual todos queriam tocar. A virgem maria do Heliópolis. Minha mão foi beijada por umas vinte bocas desconhecidas. Os resquícios de baba começaram a me enojar . E eu ia ficando, a cada "Deus te abençoe" mais, muito, absolutamente, integralmente puta da vida.

Preferia nem olhar pro Marcelo porque ele corria o risco de virar pedra e daí nem carona pra sair daquele atoleiro eu teria. Sentei no banco mais próximo da saída e esperei, paciente e tristemente, tal qual um vaca no abatedouro, o início do inevitável.

O que podia ser mais deprimente do que ele naquele púlpito, com cara de Tim Tones, ao lado uma bandinha acústica de Jesus cantando Glória, Glória, Aleluia? Eu, sendo gentilmente ajudada pelas atarracadas que, solícitas, me emprestavam suas bíblias para que pudesse acompanhar a próxima reza. Eu, seguindo reza... eu, vendo meu namorado fazer um culto... eu, numa favela sem luz... Só podia ser um pesadelo de ressaca, daqueles bem horrorosos. Quando elas pegaram minha mão e levaram aos céus para agradecer o senhor numa animada música, percebi que não era pesadelo: eu tinha subido a rua e descido ao inferno. O Apocalipse. Podia até vê-los sobrevoando minha cabeça, com suas foices e capuzes (eles tem foices?). E foi nesse instante que experimentei minha primeira viagem astral. Saí do corpo, desliguei, transcendi. Meus braços estavam levantados e dando graças, mas o que havia de pensante em mim tinha corrido de vergonha, favela abaixo, e não pararia nem para respirar até encontrar uma bela dose de conhaque. Revisei os nomes dos caras que já havia transado, pensei em agendar uma data no cabeleireiro, quase vi o vermelho do meu extrato (mas não precisava de outra coisa deprimente naquela hora), chequei se minhas gatas precisavam de comida e, de repente fui puxada de volta ao meu corpo, num tranco. O mico tinha terminado, a vaca já estava com uma bala de ar no meio do cérebro. Finito. Aleluia!

Sem me despedir de ninguém, saí correndo e me joguei dentro do carro (ele tinha deixado as chaves comigo). Marcelo, claro, falou com todos, sorriu, abraçou, deu a mão e só depois de 15 angustiantes minutos, entrou no carro.

"Você odiou, né?"

"Eu odeio quando me nasce espinha"

"Não entendi"

(suspiro) "Preferia ter visto você fazendo show de sexo explícito com uma cabra. Pelo menos não teria que levar babada nem cantar de mãozinha dada com o resto do rebanho!"

"Desculpe. Devia ter perguntado se você queria vir, se se sentiria confortável"

"Não! Você devia ter me dito que era pastor quando a gente se conheceu, porra! Onde já se viu eu saindo com um pastor. Odeio coque, odeio favela, odeio falta de luz, odeio bíblia, talmude, alcorão, odeio saber que jamais vou conseguir transar com você agora que te vi lendo salmos e falando amém!"

"Transar? Acho sexo um dom divino e só pretendo me entregar a ele com quem estiver comigo de alma e, só então, de corpo".

Não disse nada. E, mesmo se quisesse, não conseguiria: fiquei apoplética. Dançar rumba no meio da praça da república vestida de Chacrinha seria menos surreal do que aquilo. Para fechar com chave cravejada de brilhantes, ele me levou para jantar "num lugar que é a sua cara: animado, divertido, passional": uma cantina do bexiga. Superlotada. Sábado à noite. Com fila pra entrar. Tocando "iamo, iamo, iamo, iamo, ia". Gente batendo o punho na mesa pra acompanhar o ritmo. Claro, não me bastava Glória, Glória, Aleluia, precisava mesmo de uma canção italiana cantada num idioma hibrído de português com japonês e espagueti. Que catso de cara eu devia ter pra ele? Era perto da meia noite quando me deixou em casa. Não sei se ele havia se tocado, mas eu sabia que, quando saísse daquele carro, jamais o veria novamente: Deus havia me iluminado e dito "Minha filha, ele não é homem pra você". Dei um beijo de boa noite, entrei em casa, fiz um telefonema, peguei a chave do carro e me mandei pra praia encontrar o André, um surfista acéfalo de vinte anos mas que, pelo menos, não me faria assistir culto na favela. E, claro, me comeria. "O Aconcágua fica lindo nessa época do ano", o caralho.

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