Um dia atípico. Estava meio perdida e só. Seus olhos vagavam por um espaço inexistente, atemporal. Sua vida havia se transformado num eterno desencontro. A noite estava quente mas já fazia tempo que isso não a incomodava. Já fazia tempo que não se importava com nada.
Sentada numa poltrona, observando o movimento noturno através da varanda, não se preocupava com a solidão. Foi nela que encontrou a paz e só com ela conseguia mantê-la. Sua vida era preenchida por si mesma, silêncio, livros e a luz de cabeceira.
Quando linhas escritas por terceiros motivavam, a sua revelia, a lembrança de antigos amores ou velhos amigos, ela forçava seu desaparecimento e então, tudo sumia gradualmente, como cenas de um filme visto há muito tempo. Ela não mantinha mais vínculos com o passado e não amava nada a ponto de se importar.Os fatos não haviam sido bons e ela prometeu nunca mais ser grata por nada: estava cumprindo.
O cansaço vão das ações a acompanhava. Seus vocábulos, um dia tão sedutores, haviam calado. Suas palavras transformadoras, secado. Só o frio seguia com ela naquela morte prematura, velório diário. Somente as páginas marcadas de seus livros podiam lhe fazer companhia. Somente sua vida amarelada com o tempo. E não era ele quem necessariamente que fazia bem ou mal. Fatores externos não serviam como guia no processo diário de ódio; pararam de existir influências sobre aquela pessoa tão modificada. O espaço para o novo estava preenchido pelos destroços do velho.
Parecia definhada a vontade. Farrapos de passado ainda restavam na vida diária e rotineira; a única diversão era ser infeliz com as lembranças.
Havia estado, por muitos dias (longos dias), infeliz.
Sua maneira de falar dizia sempre adeus. Eram vãs as palavras doces. Pretendia sempre dizer adeus. Cortes não cicatrizam assim tão depressa e sua ferida ainda doía. O mundo havia se transmutado em granito cinzento e as nuvens pesavam como a mão de um idoso. Ainda resistiam algumas nuances de verde, alguma esperança mas, proteção, nascera a aridez, a falsa miragem de segurança na dor. Perdera, por diversas vezes, o rumo de sua história, entregando-o para aquela parte do seu ser onde só existe o que gostaríamos que existisse e geralmente não há nada.
Dizer ao certo sobre a transformação parecia impossível. Tinha receio de afundar mais e soterrar-se em seus próprios remorsos . Poderia não suportar o peso do que fatalmente viria.
Revirava seus armários em busca de algo que lhe confortasse nos raros momentos de desespero: um bilhete rasgado, cartas sugerindo antigos nomes, fotos de festas, papéis de bala dizendo ‘te amo’. Nada encontrava a não ser seu ser ilhado numa moldura escura, ao lado de alguém que havia sido morto por ela. Alguém que a tinha matado muito antes.
Fora reduzida a nada e daí teria que partir. Correra sem chegar e precisava resgatar suas forças. Rogava por elas. E pela esperança, e pela vontade. As acharia?
O telefone já não ajudava. Tocaria em lugares com pessoas distantes, pessoas que haviam se feito assim. Não adiantaria nada. Por culpa sua, seria inútil. Até mesmo o calor da noite prometia mais alegria.
Sempre odiara o calor.
Vultos passeavam tranqüilos pela casa, levando e trazendo consigo lampejos de lembranças. Gostaria de expurgar o que sentia. Estava exausta. Parecia viver dentro de uma esfera de lembranças amargurantes, era castigo demais, dor desnecessária e inexplicada. Estava realmente exausta daquilo.
Conseguia distinguir algumas coisas. Sua vontade de desaparecer era uma delas.
O barulho na rua aumentara obrigando-a a entrar para a sala. Os sons eram arranjos sem sentido de buzinas, crianças e músicas perdidas dos carros que passavam. Sentada em seu sofá, folheava sem vontade um antigo livro de quiromancia, e ao olhar suas mãos via uma vida triste e, á partir de um momento no passado, vazia, absolutamente vazia.
Seu olhar estava pesado, sem foco. Aquela noite não estava sendo boa para ela. Pensava no que passou e olhava sua mão; ela lhe dizia tudo, com detalhes. O fato de ter amado era um deles, era um detalhe.
Ouvia seu próprio suspiro e sentia seu corpo pesar. Matar-se era dramático demais e poderia não dar certo, não queria correr esse risco; ainda havia muitos livros, histórias dignas de serem contadas, deveria existir algum motivo para continuar seguindo. Só teria que encontrá-lo (cada vez mais difícil de detectar).
Gostaria de ter a capacidade de se surpreender. Todos seus quadros a advertiam da passagem do tempo, seus móveis tinham a forma de seu corpo. Tinha perdido a capacidade de ter alegria, de amar, de reagir. Era um grande desânimo, estava atrofiada de tanta amargura estocada em sua maneira de ver o mundo, sua capacidade de reter dores era ilimitada. Não tinha mais vontade de pensar, só o que lhe atormentava estava raso o suficiente para emergir.
As cinzas reacendiam, às vezes.
Começava a suar e foi trocar de roupa. Não se arrumaria porque não havia motivo, simplesmente poria algo mais confortável para deixar de se incomodar com aquela temperatura lastimável, não gostava da sensação que o calor trazia. Era lasciva.
Ficava assim sem saber se alguém tinha algo a lhe dizer. Era nula, ninguém haveria de se importar.
Nesses seus 25 anos de vida, nunca, mas nunca, uma noite havia sido tão insuportável. Mas era melhor não pensar nisso.
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